O ARTESANATO DA ARTE DE VIVER A VIDA

Lydia Rebouças*

A VIDA É DADA a nós, e nós a merecemos dando-a.
Rabindranath Tagore

A Arte de Viver a Vida é uma confissão e uma oferenda da vida de Pierre Weil. Reflete seus passos, sua busca, a maneira como enraizou todo um precioso aprendizado em seu cotidiano e a brilhante forma que encontrou de compartilhar e multiplicar essa riqueza. Por ser tão pessoal, é tão universal.  É uma metodologia possível, eficaz e profunda de educação para a vida de todos nós. Mostra um caminho que poderá nos levar a refletir e experienciar a unidade, a inteireza, a paz, os diferentes estados de consciência, a presença plena no cotidiano, a harmonia, os conflitos, a natureza e a passagem. Revela uma trilha amorosa para nossa peregrinação diária.

Pierre, educador e doutor em psicologia era francês. Veio de mala e cuia para o Brasil em 1948 e ficou encantado com nosso abraço espontâneo e afetuoso. Aqui, foi um dos pioneiros nos esforços pela regulamentação da profissão de psicólogo. Na Universidade Federal de Minas Gerais foi o primeiro a lecionar Psicologia Transpessoal. Iniciou a criação  da metodologia que mais tarde seria denominada  A Arte de Viver a Vida. Nas salas de aula da UFMG, costumava propor a seus alunos várias vivências do seminário A Arte de Viver Consciente, o seu preferido, a menina dos seus olhos.

Como psicólogo, Pierre sempre foi um psicodramatista. Daí veio o primeiro batismo desse trabalho como Cosmodrama, deixando clara a costura feita entre o Psicodrama e o universo cósmico da Psicologia Transpessoal. Foi por meio do Cosmodrama que nos conhecemos, em 1978, nos workshops que ele realizava em Brasília.

Depois disso, Pierre saiu de cena por três anos, três meses e três dias, quando participou de um retiro espiritual. Pouco tempo após seu retorno, em 14 de abril de 1987, deu início à UNIPAZ em Brasília, uma organização não-governamental com a missão de desenvolver uma cultura de paz e não violência por meio de uma educação integral, transdisciplinar e holística. Essa realização foi a concretização do ideal de paz sempre presente em Pierre. Naquela ocasião, a vida voltou a nos re-unir, como amigos fraternos e parceiros no enraizamento dessa utopia. 

Poucos meses após a inauguração da Universidade Internacional da Paz, Pierre convocou um grupo de terapeutas, com os quais tinha um convívio mais próximo, para participar da primeira turma de formação de facilitadores dos seminários de Cosmodrama. Além de nos prepararmos para transmitir essa metodologia, tivemos como responsabilidade adaptar o modelo francês do curso de Formação Holística de Base, criado na década de 70, à nossa realidade brasileira, com o objetivo de lançá-lo na Unipaz/DF. 

De início, não entendi o que uma coisa tinha a ver com a outra. Perguntei a Pierre que relação existia entre a formação e o trabalho de planejamento do curso de Formação Holística de Base. Ele me disse que ambos partiam da proposta teórico-vivencial que estabelece pontes entre:

  • as quatro funções psíquicas preconizadas por Carl Jung: pensamento, sentimento, sensação e intuição; 
  • os diferentes estilos de conhecimento: ciência, arte, filosofia e tradições espirituais; e  
  • as três Ecologias ou três consciências: Ecologia Interior/Consciência Pessoal, Ecologia Social/Consciência Social e Ecologia da Natureza/Consciência Ambiental. 

Além disso, os Cosmodramas, posteriormente denominados de A Arte de Viver a Vida, constituiriam a espinha dorsal do curso de Formação Holística de Base.  

 Do Planalto Central, convidou Roberto Crema e eu para participarmos desses trabalhos. Aceitei o convite alegre e honrada. Indaguei onde iríamos nos encontrar, imaginando que, obviamente, seria na Unipaz em Brasília, já que estávamos inteiramente dedicados a implantá-la. Pierre, sorrindo, me disse: 

Vai ser em Betim.

E eu pasma: – Betim? Onde fica?

– É em Minas, perto de Belo Horizonte. Iremos nos encontrar no “Salão do Encontro”. Lá você imediatamente descobrirá o porquê.

E assim, apanhada de surpresa, segui viagem rumo a Betim. Conhecer o “Salão do Encontro” foi uma experiência que alegrou todo meu ser! Descobri um programa social que atende através da arte-educação pelo trabalho. Todo ele é uma bela obra-d’arte. Lá encontrei de bebês aos mais vividos, todas as faixas etárias atuando conjuntamente. Velhinhas tecelãs peregrinando de sua oficina até a escola das crianças, para ensinar sua arte. Artesãos da madeira, barro, fios e tramas criando com beleza comovente e aprendendo a arte de viver a vida.

Pierre nos levou até lá para sempre lembrarmos de irradiar nosso trabalho às pessoas menos favorecidas economicamente. Recomendava que a cada três seminários pagos, realizássemos um gratuito. Em Betim, reconheci nele um cuidadoso terapeuta social.

No Colégio Internacional dos Terapeutas, do qual participo, entendemos que terapeuta é aquele que cuida. Os terapeutas são acolhidos em três categorias: clínicos, sociais e ambientais. Pierre se revelava como um terapeuta em todas essas formas de cuidar.

A Formação Holística de Base foi lançada em Brasília em agosto de 1989. O sucesso foi surpreendente.  A primeira turma contou com mais de cem aprendizes de todo o Brasil e encerrou sua jornada em 1992 com o Seminário sobre os Terapeutas de Alexandria, conduzido por Jean-Yves Leloup. 

A partir daí várias Unidades Unipaz foram nascendo em outras cidades. Agora, em 2020, a Unipaz DF está na 22ª turma de Formação Holística de Base. Esse curso continua acontecendo na maioria das unidades Unipaz. 

Pierre gostava de relacionar a Unipaz à Escola de Sagres. Dizia que no século XV, a Escola de Sagres preparava os navegadores que iriam des-cobrir novas terras. Hoje, a Unipaz contribui preparando novos navegadores, aos quais denominava Pontifex (termo latino que significa construtores de pontes) e Samurais, isto é, os servidores da paz.

Posso garantir a vocês que a Formação Holística de Base vem preparando, ao longo de todos esses anos e nas diferentes unidades Unipaz, muitos Pontifex e Samurais.

A Arte de Viver a Vida tem como síntese  A Arte de Viver em Paz, um trabalho encantador, abrangente e atual. Tem se mostrado muito efetivo, como sensibilização, nos mais diferentes grupos onde vem acontecendo. Nele, Pierre elaborou uma teoria sobre a destruição da vida, explicitada na Roda da Destruição. Em seguida, propôs princípios e abordagens de educação para a paz, na Roda de A Arte de Viver em Paz,  onde podem ser experienciadas, com interdependência, a ecologia interior, a ecologia social e a ecologia ambiental. Dessa forma, tornou-se pioneiro no que hoje denominamos ecoformaçãoA Arte de Viver em Paz é uma metodologia reconhecida pela Unesco e publicada em português, francês, espanhol, inglês, alemão e catalão. No ano 2000, a 26ª Assembléia Geral da UNESCO recomendou-a como um novo e eficaz método de educação para a paz. 

Pierre foi e continua a Ser um semeador com visão ampla, amorosa e generosa. Várias vezes o vi brincando de fazer uma progressão geométrica, imaginando que poderíamos formar tantos facilitadores da A Arte de Viver em Paz que esse trabalho seria multiplicado em todos os cantos de nosso planeta. Ele cuidou disso com maestria, de forma que essa metodologia de educação para a paz pudesse ser aplicada a quaisquer pessoas: letradas e iletradas, de todas as religiões e visões do mundo.

Convivendo com Pierre, pude ver o quanto tudo isso fazia parte de sua arte de viver o cotidiano. Nos dois primeiros anos da Unipaz/DF, partilhamos uma experiência comunitária muito intensa. Passamos a residir na Granja do Ipê, sede da Unipaz, na companhia de um grupo diversificado de pessoas. Ali, durante todo o tempo, reconheço que convivi com um Pierre aberto e cuidadoso. Sempre que estávamos com dificuldades para encarar nossos conflitos pessoais, interpessoais e intragrupais, ou quando estávamos idealizando a Unipaz, Pierre nos dizia que a Cidade da Paz é também a cidade do conflito. Lembrava-nos que o primeiro passo consiste em acolher e tomar consciência dos conflitos, para que fosse possível transformá-los.

Pierre integrou, de fato, todas as artes de viver. A respeito da arte de viver o conflito, lembro que ele sempre cultivou o princípio de não passar 24 h com uma mágoa ou um ressentimento guardado, sem compartilhar sobre isso com a(s) pessoa(s) envolvida(s). Foi um exemplo inspirador para todos nós, de uma humanidade plena.

Durante sua vida, foram realizados muitos cursos de formação de A Arte de Viver em Paz, mas poucos sobre a A Arte de Viver a Vida.

A primeira turma da A Arte de Viver a Vida foi formada, conforme compartilhei, em Betim-MG. A  última aconteceu em Brasília, logo antes do fim de sua vida terrena em 10 de outubro de 2008, tendo sido composta por dois grupos, totalizando 44 participantes. Pierre facilitou o 1º módulo e concluiu o mesmo apenas onze dias antes de sua passagem. Logo depois, fui convidada pelo colegiado da Unipaz/DF para dar continuidade ao processo. Os participantes dessa turma são pessoas muito comprometidas com a missão da Unipaz, estando a maioria delas diretamente ligada às diferentes Unidades Unipaz. Assim, Pierre continua bem vivo através do trabalho de A Arte de Viver a Vida. Nutrimos por nosso Samurai e Pontifex, primeiro, um amor é-terno.

Convido você a ler A Arte de Viver a Vida, ed. Vozes. Esse livro revela um legado precioso para todos que buscam viver plenamente, com leveza e alegria, a complexa e misteriosa existência!  Bons passos!

Lydia Rebouças é  Psicóloga, Educadora e Cofundadora da Unipaz no Brasil, onde está Vice-Reitora.